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Uma alma fugida...

Numa cidade velha, longe das metrópoles e com uma população de no máximo cinco mil habitantes, vivia o Lionel. E, para entender um pouco sobre o Lionel, é necessário que não se prenda demais a sua figura, pois o Lionel é quase transparente de tão branco. Em cidades pequenas como a que Lionel mora, e especialmente nesta, haviam muitas histórias de fantasmas e espíritos que eram mais fortemente passadas de pai pra filho que uma boa educação e índole.

Todos na cidade e nos arredores conheciam a história de Hernandez Rodriguez, o Branco. Não havia uma criança que não tivesse medo dele, mais medo que do homem do saco, ou hoje em dia, de ficar sem internet, porque claro, a cidade era pequena e velha, mas já invadida pela tecnologia. E Hernandez Rodriguez também estava na internet, vários casos de pessoas assombradas por ele, e algumas que conseguiram sobreviver à ele, mas não ao seu filho, mais terrível que ele: o Filho Branco!

Se ainda não ligou os pontos, Lionel, nosso destemido branquelo, tinha problemas para sair de casa por ser um rapaz muito branco. Desde a infância, todos tinham medo dele, era um transtorno ir para a escola, não ter amigos, mesmo com várias tentativas, ele sempre era discriminado pela grande maioria da cidade por não ter pigmentação na pele que o fizesse ficar mais corado. Em uma tentativa, ele passou o dia no sol e ao invés de ficar mais moreno, ficou vermelho e passou uns dias de cama com insolação. Uma benção para as pessoas da cidade! Alguns comemoraram a derrota do filho de Hernandez, outros que não teriam mais de ver aquele esquisito branquelo.

10 dias depois quando foi na padaria, já melhor da insolação, quase matou a atendente do coração. Uma mulher de muita fé, mas que não confiava muito na salvação de Jesus quando frente a frente com o filho de Hernandez, o Branco! O boato se espalhou rápido, ele havia voltado e estava mais forte do que nunca! Quase matou a coitada da Gisnéria no caixa da padaria. Mas dessa vez, ele não estava sozinho, tinha a sua companheira de matanças, a Bélia de Branco. A coitada da desmaiada acordou inventando fábulas, sendo que quem estava do lado de Lionel, na verdade meio afastada, era a senhora Fiodéria, com seus cabelos brancos e cara de velha.

Entretanto, Lionel gostou muito dessa nova história, parecia que haveria então um final feliz para o seu desespero. Ele encontraria uma princesa fantasma e juntos estariam a salvo. Pois que a vida não poderia ser assim tão simples para ninguém, não é mesmo? Antes de mais nada, Lionel foi expulso da casa onde morava. "O que!?" Bem, ninguém mais queria se assustar com ele, e vejam só o que 10 dias fazem, a sua falta não foi sentida e sim comemorada, e agora, estando de volta, virou mesmo uma assombração para todos, até mesmo para seus colegas que não queriam mais ser chamados de amigo do "monstro".

Ora ora, o coitado do Lionel já não era bem quisto na cidade, agora depois de ser enxotado de sua própria casa, estava decidido: "Vou sair dessa prisão!" Pegou suas coisas, arrumou provisões, e correu chorando para fora da cidade, assustando todo mundo pelo caminho. Não sabíamos quem chorava mais, se Lionel de coração partido, ou o pessoal por quem ele passava. Muitos se jogavam no chão com medo, outros corriam para salvar suas crianças, e ainda haviam os que corriam para dentro de casa. Um terror só. Que tumulto! Que bagunça!

- Não é só pela minha cor! - Gritou ao atravessar os portões da cidade.

Saindo sem rumo, ele correu por todo canto, andando em círculos por um tanto de tempo, e depois de alguns dias chegou a conclusão que estava perdido e sem comida suficiente para mais um dia. Teria que achar um vilarejo, uma vendinha, qualquer coisa que pudesse lhe salvar a vida, ou estaria fadado a realmente tornar-se um espírito que vaga por aí, só que ainda mais branco.

Passadas algumas horas do último gole de água do cantil, ele viu um totem erguendo-se no horizonte. Finalmente uma outra cidade ou pelo menos um posto, onde ele possa encher seu cantil e comer uma quentinha. Correu, caiu e tropeçou, ralando o rosto numa pedra lascada, mas não foi quase nada, e quando chegou perto da visão, era o portal de uma cidade bem maior que sua terra natal. E também mais hospitaleira. Quando os guardas no portal o viram, correram até ele, colocaram-no sentado e lhe deram água. Chamaram um socorrista para verificar se estava tudo bem e para cuidar da ferida no rosto.

Lionel não entendia, não estava nem um pouco acostumado com pessoas lhe oferecendo cuidados, afinal de contas todos corriam do Filho Branco. E quando o socorrista chegou, ele arrepiou-se todo! Era uma menina muito cuidadosa e, podia-se dizer que era carinhosa, mas não era isso que o impressionava, mesmo depois do tratamento dos guardas dessa nova cidade. Ela era.. Linda! A pele mais quente que ele já tocou, um sorriso tão aberto e branco que fazia o contraste harmônico com sua pele negra e macia. A pele mais bonita e vibrante. Esplendorosa! Lionel nunca tinha visto ninguém igual. Porque da cidade velha, parecia que todos tinham... cor de merda, sujos e sem brilho.

Dorah era enfermeira e fez um curativo em Lionel inteiro. No rosto pelo arranhão da pedra, também nas pernas e no cotovelo esquerdo pelo tombo que levou. Outros curativos, na mente, a cidade foi quem fez por tê-lo bem quisto logo quando chegara, mas o principal deles, foi aquela linda mulher, que com sua beleza e brilho, abriu os olhos do pobre Lionel, mostrando que ainda existiam maravilhas maiores no mundo.

Lionel viveu por mais tempo naquela cidade, e sem ninguém lhe apontar o dedo, morrer de medo ou ter um piripaque, ele foi feliz. Arranjou emprego em uma loja de guloseimas e as crianças ficavam felizes por ele ser branco e doce, como açúcar. Casou-se com Dorah, e naquela cidade livre, cresceram seus filhos e os filhos destes. Uma cidade que recebeu não só pessoas diferentes, mas amparou essas pessoas, fez a diferença em tantas vidas, que reunidas, viveram tranquilas numa cidade quase esquecida, chamada Acolhida.

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