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Uma sala de espera, e uma esperança...

Se existia algum motivo para estarmos na mesma sala, era puro capricho do acaso.
Eu tinha plena consciência que coincidências não existiam, mas queria, não, eu precisava me enganar.
Aquele não parecia ser um lugar que nós entendidos frequentássemos muito, eu, por exemplo, só estava ali para renovar minha carteirinha de sócio, ao contrário das mulheres que vão bastante àquele balcão, onde falam animadas com a atendente e fofocam o dia todo sobre qualquer coisa que as mulheres gostam. E como falam! Estamos aqui esperando já à meia hora, e só 2 mulheres foram atendidas, enquanto ainda há mais 2 na frente dele, e mais uma na minha frente depois. Estou preparado para passar a tarde aqui, trouxe até um livro.

Mas ele me intriga. É bonito demais pra ser entendido, eu acho, e não liga muito para o modo como se veste, nem como se penteia. Nós somos mais cuidadosos. Apesar que já vi muita gente que não liga muito para aparência, e ele desarrumado já é lindo, não tem mesmo que se preocupar muito.
Então eu desencano, pego meu livro e começo a ler, enquanto ele olha pra cima entediado e as outras mulheres na sala de espera conversam muito excitadas. Percebo, aliás, que uma olha para ele e dá risadas forçadas. Vaca. Ele nem percebe, homens são tão desligados desse jeito.

Entretido no livro, não percebo quando ele vem sentar-se perto de mim até que ele me perguntou:
- Gosta de Saramago?
- Oi? Ah, sim, esse é o primeiro livro dele que leio. Me chamou atenção depois que assisti "Ensaio sobre a cegueira". E você?
- Eu gosto de ler, mas prefiro aventuras e ficção, mas também gostei muito do filme e queria saber se os livros dele são bons.
- Se gosta de ler, deve saber que são. - Será que gosta mesmo? - Qual foi o último livro que leu?
- O último que li foi: Extraordinário. Conta de um menino que nasceu com uma doença que lhe desfigurou o rosto, é bastante emocionante e bem rápido de ler. Agora estou finalmente lendo Drácula.
- Entendo. - Voltei a ler.

Ele ficou quieto do meu lado, olhando para tudo que se movia. Parecia claramente entediado, e como eu cheguei na sala e ele já estava lá, acredito que devia estar esperando a bastante tempo, ou não gostasse de esperar. Não que eu goste, mas estou sempre preparado quando preciso. Fiquei em dúvida se puxava assunto ou não, já que eu não queria saber de alguém que gosta de ler, é bonito, parece muito simpático e possivelmente não verei de novo. Na mesma hora, chamaram a próxima senha. Decidi arriscar, pois se não falasse com ele agora, talvez não falasse mais.

- E o que você faz da vida....? Como é seu nome, primeiramente?
- Sou Fábio, prazer. Eu sou bailarino. E você?
- Me chamo Alvaro e sou ator. Olha, trabalhamos os dois com artes.
- Que legal! Quando precisarem de um bailarino, me chame! Sempre precisamos de trabalho!

Rimos, mas a outra moça saiu e ele foi chamado, eu nem vi o tempo passar. E ele foi. Quando ele saiu da sala de atendimento, e saiu bem rápido; não quero imaginar o que as mulheres realmente fazem lá dentro; agradeceu pela companhia na espera, se despediu e foi embora.
E eu fiquei sem saber o que fazer. Eu estava diante de um rapaz lindo e interessante, mas que eu não fazia ideia se poderia ou não continuarmos pelo menos uma amizade, ainda mais algo mais sério, mas eu estava com uma quedinha desde que entrei naquela sala. Agora ele foi embora, e queria poder ir atrás dele, mas não posso. Queria poder pelo menos trocar telefones, mas ele também não mostrou interesse algum. Deve ter falado comigo simplesmente por estar entendiado de ouvir as mulheres fofocando, e agora vai encontrar sua namorada e seus amigos, ou voltar para os seus ensaios.

Eu devo estar muito carente...
Meu nome é chamado, refaço minha carteirinha e a menina do atendimento saiu e eu vi a ficha do Fábio, procurei por um telefone, mas ele não fez cadastro. E quando ela voltou, eu estava desolado. Agradeci, e saí. Voltando para a vida real, onde os corações carentes se partem e a esperança não é a última que morre, porque a gente continua vivo depois que ela partiu dessa pra...

- Hey Alvaro! Esqueci de deixar meu telefone contigo. Até mais.
Na saída, Fábio correu até mim e me entregou um papel com seu telefone anotado, e eu não tive reação nem pra agradecer, ele acenou e saiu correndo, foi até seu carro e sumiu na primeira curva à direita.
Eu não sei se ele me deu seu telefone por qualquer outro motivo, senão, por oportunidades como bailarino profissional, que eu realmente posso indicar, mas eu sei que dessa vez, minha dúvida durará pouco. E se for mais que isso, que ele seja solteiro...

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